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terça-feira, 20 de março de 2012

"Stalinismo" igual ao Nazismo?


Publicado em DOMINGO, 21 DE FEVEREIRO DE 2010.

Em meados do ano passado, mais uma pérola anti-comunista foi lançada pela União Européia. A OSCE (Organização para Segurança e Cooperação na Europa) tratou de igualar o chamado "Stalinismo" ao Nazismo, e não só isso criaram uma resolução que igualava os papéis da URSS e da Alemanha Nazista durante a Segunda Guerra Mundial. O dia 23 de Agosto (O dia que foi assinado o Tratado de Não-Agressão Molotov-Ribbentrop) se tornaria então o dia para se lembrar das vítimas do "Stalinismo" e do Nazismo. Qualquer que saiba pelo menos um pouco de História deveria ficar horrorizado com este ato criminoso de propaganda. Até onde eu sei, os verdadeiros criminosos foram a Grã-Bretanha e os Estados Unidos.

A primeira com seus tratadinhos de paz com os alemães que acabaram por entregar países inteiros para as mãos dos nazistas - Lembram-se do Tratado de Munique e da Tchecoslováquia? Provavelmente não. Pois o Ocidente adora apagá-los da memória. Advinhem o que a URSS fazia enquanto a Grã-Bretanha entregava a Europa de mão beijada a Hitler? Convocava incessantes encontros diplomáticos com França e Grã-Bretanha para se formar uma Aliança Anti-Fascista sólida, mas as "democracias" ocidentais não deram muita bola. Simplesmente adoravam demais a idéia de ver uma suástica tremulando no Kremlin, em vez de uma foice e um martelo.

E quanto aos Estados Unidos? Há dois pontos. Primeiro, seus bancos e grandes empresários basicamente financiaram Hitler e, segundo, seu isolacionismo covarde aponta para uma atitude parecida com a das potências européias. Deixe Hitler livrar o mundo do comunismo! Quem cala, consente.

Aí é que teve que entrar a astúcia da diplomacia soviética. Abandonada pelo resto do mundo e frente a frente com uma impiedosa e sanguinária máquina de guerra, a URSS aceitou o Tratado de Não-Agressão apresentado pela Alemanha Nazista. Já que em 1939 seria suicídio enfrentar a Wehrmacht sozinha. E vocês me perguntam então: Porque a Alemanha propôs este Tratado à URSS? Simples. Nesta mesma época, a URSS estava em negociações com a Grã-Bretanha e a França para firmar a Aliança Anti-Fascista. E desta vez realmente parecia que as coisas iam engrenar. Hitler preocupou-se - lutar em dois fronts seria a derrota alemã. Então ele mandou diplomatas para a URSS numa tentativa de salvaguardar seu front oriental. O problema é que as coisas só pareciam que iam para frente, pois a legação britânica enrolou várias semanas para chegar na URSS e quando chegou, revelou que não tinha poderes para formar uma Aliança Militar de verdade. Aquilo seria só um pré-acordo. Ora, um pré-acordo não ajudaria a URSS caso os panzers alemães invadissem suas fronteiras! A saída foi assinar o Tratado de Não-Agressão com a Alemanha, pois a legação alemã veio com poderes dados pelo próprio Führer para firmar um acordo decente. Um acordo que deu quase dois anos para as indústrias soviéticas montarem uma máquina de guerra que enfim derrotaria o nazismo.

Outro ponto interessante é o Nazismo era genocida. Temos o Holocausto e a Guerra de Extermínio contra a URSS como prova de massacres que dizimaram milhões e milhões de vidas humanas. E o "Stalinismo"? Primeiro que nem existe "Stalinismo". Quem é rotulado de "Stalinista" pelo Ocidente considerava-se Bolchevique, ou simplesmente Comunista. Segundo ponto, não há nenhuma evidência que aponte para a URSS como um Estado genocida. Vocês podem pesquisar os resultados da pesquisa de John Arch Getty sobre o sistema penal soviético após a abertura dos arquivos no início dos anos 90. Podem pesquisar os resultados das pesquisas de Robert Thurston, de Yuri Zhukov e de tantos outros gigantes da História. E simplesmente não vão encontrar nenhum pingo de genocídio. Encontrarão certamente uma faixa de 300.000 a 600.000 mortos pelo regime até 1953. Uma parte era de assassinos e outros tipos de criminosos não-políticos que foram sentenciados à morte por seus crimes. Outra parte era de criminosos políticos, entre eles kulaks que pegaram em armas para defender o regime de servidão e que queimaram plantações inteiras, destuíram tratores e mataram animais como atos de terrorismo contra o Estado soviético. Mas grande parte deste número é formada por pessoas executadas sem julgamento, portanto possivelmente inocentes. Que a justiça seja feita, não sou nenhum fanático. Então Paulo, estas são as vítimas do "Stalinismo"! Me desculpe, mas devo discordar.

Primeiro é preciso entender o contexto histórico soviético dos anos 30. A ascensão do fascimo e sua retórica militarista e anti-comunista aterrorizava cada um dos cidadãos soviéticos. Além disso, a luta entre burocratas do partido e leninistas se tornava cada vez mais encarniçada. O que seriam estas duas facções políticas? A primeira é herdeira da burocracia do Império Russo, são sujeitos de mentalidade retrógrada que não tem escrúpúlos quando o assunto é poder e riquezas. Um de seus mais conhecidos nomes no Ocidente é Nikita Sergueievich Khruschev. E hoje em dia, Vladimir Putin. Um verdadeiro herdeiro da burocracia soviética. A segunda é herdeira de Lênin, defensora do socialismo e do poder aos sovietes, são sujeitos muitas vezes humildes que defendem a igualdade a todos os custos. Sua figura mais proeminente é justamente Josef Vissarionovich Dzhugashivilli, o famoso Stálin.

Enquanto os burocratas tentavam centralizar cada vez mais o poder em suas mãos, Stálin tentava descentrálizá-lo nas mãos dos Sovietes. A briga torna-se mais feroz com o advento da nova Constituição Soviética. Stálin e seus companheiros criaram uma Constituição que minava o poder dos burocratas, apelando para eleições competitivas, secretas e diretas, além da completa separação do Estado e do Partido. O Partido passaria a ter apenas a função de propaganda, libertando assim, o Estado das mãos dos burocratas. As eleições acabariam por dizimar os últimos inimigos do povo, já que os leninistas é que detinham a aprovação da população. O problema é que estes artigos revolucionários foram recusados, já que a nomenklatura (outro nome para os burocratas) deteve maioria nos sovietes e no Birô Político do Partido. Stálin morreu lutando por isso, assim como Beria. E com eles o marxismo-leninismo foi enterrado de vez na União Soviética.

As conspirações de Tukacheviskii e dos direitistas tiveram grande papel nesta vitória da nomenklatura. Já que elas serviram como forte sustentáculo da burocracia soviética, que espertamente desviou a atenção da nação da Nova Constituição para o perigo extremo da Contra-Revolução. Além do que, isto tudo lhes deu pretexto para a repressão em massa em defesa da Pátria Mãe. Vários opositores da nomenklatura foram executados sumariamente - só Kruschev tem o peso de 80.000 vidas em suas costas - ou presos sem mais explicações. As troikas espalharam o terror pelo país, tudo por causa de um exagero enorme acerca das Conspirações anti-soviéticas da década de 30. Stálin, pressionado pelas troikas, acabou por assinar um documento que as apoiava. Yuri Zhukov, historiador chefe da Academia de Ciências de Moscou, diz que se ele não tivesse assinado, provavelmente seu nome estaria no Memorial das vítimas da Grande Repressão.

Portanto estas milhares de vítimas não são vítimas do "Stalinismo", mas sim da nomenklatura soviética. Tanto que Stálin fez questão de colocar Béria no poder, assim que o medo disseminado pelos burocratas veio abaixo e a situação se acalmou. Lavrentii Béria então normalizou o caos que se encontrava na nação. Levando o NKVD a fazer inúmeras investigações que acabaram por prender e executar Ezhov e Yagoda, além de outros membros do NKVD que prenderam e mataram ilegalmente. Além disso, centenas de milhares de pessoas foram libertas, após as investigações concluírem que não havia nada contra elas.



Logo, como igualar o Nazismo ao "Stalinismo"? Eram dois regimes antagônicos que se odiavam mais do que tudo neste mundo. Um era um regime racista, genocida e militarista. O outro levantava a bandeira do internacionalismo proletário e da luta contra a exploração do homem pelo homem. O fato é que a União Européia teme e teme muito o impacto que as idéias de Lênin e Stálin podem causar. Teme que o gigantesco desenvolvimento social, cultural e econômico da URSS em um espaço de 20 anos possa levar mais e mais pessoas a acreditar em uma alternativa ao capitalismo. Como aliás vem acontecendo na Rússia, na Ucrânia, na Hungria e em algumas outras ex-repúblicas socialistas. A força de manifestações comunistas nestes países é cada vez maior, como os aniversários da Revolução de Outubro e de Josef Stálin demonstraram ano passado, juntando centenas de milhares de pessoas em torno dos estandartes vermelhos que tanto aterrorizam as elites ocidentais.


Isso tudo não passa de lavagem cerebral descarada. Não duvido que as próximas resoluções virão criminalizar o Comunismo. Colocando-o novamente na clandestinidade. Forçando o ensino das próximas gerações a enfiar a ideologia liberal goela abaixo das crianças - mais ainda do que hoje em dia -, forçando o ensino a elevar propagandas puramente ideológicas ao status de "verdade absoluta e incontestável". Logo mais falar em Lênin, Stálin e URSS será como defender a tese do "Holoconto" e o Nazismo. Pessoas serão presas e reprimidas por isso.

Abaixo à criminalização do Comunismo! Abaixo à lavagem cerebral capitalista!

Glórias eternas à União das Repúblicas Socialistas Soviéticas! E à verdadeira democracia popular!

Bibliografia: "Life and Terror in Stalin's Russia" de Robert Thurston, "Stalin and the Struggle for Democratic Reform" de Grover Furr, "Inoy Stalin" de Yuri Zhukov e "Victims of the Soviet Penal System in the Pre-War Years: A First Approach on the Basis of Archival Evidence" de John Arch Getty, Gabor T. Rittersporn e Viktor N. Zemskov.

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