Agora

domingo, 18 de março de 2012

Diante de Stalin...


Graciliano Ramos 

Por Graciliano Ramos, na escadaria do Kremlin, há poucos metros de Stalin, em 14 de junho de 1952, relatado em  sua obra “Viagem”-Record-1976)

“...A cidade estava cheia de retratos de Stalin- e isto provocou a observação indiscreta de um de nossos companheiros: a demonstração de solidariedade irrestrita não impressionava bem no exterior.


A ¹Senhora Nikolskaya ouviu com paciência a crítica azeda, julgou-a, cortesmente, leviana e absurda: nenhum russo admitia que as coisas se passassem de outra maneira. Essa  réplica isenta de motivos era, no meu juízo, superior a um longo discurso esteado em razões. Estávamos diante de um fato, e condená-lo  à pressa, ao cabo de alguns passeios na rua, parecia-me ingenuidade. Com certeza ele era necessário, e devíamos, antes de arriscar opinião, investigar-lhe a causa. Realmente não compreendemos homens do Ocidente, o apoio incondicional ao dirigente político; seria ridículo tributarmos veneração a um presidente de república na América do Sul.Não temos em geral,nenhum respeito a esses indivíduos.Pelo contrário:   a massa  experimenta prazer em atacá-los, os jornais da oposição encarniçam-se em apontar-lhes as mazelas, reais ou imaginárias. O amor a um poder, na verdade, bem precário, faz que essas criaturas se resignem a tomar diariamente um banho de lama.  Verdades e calunias confundem-se. Hoje em cima, embaixo amanhã, preso a interesses inconfessáveis,obrigados a  mendigar  o voto, alargando0-se em promessas num instante esquecidas, o homem público é um ser mesquinho...

Trazemos no espírito a lembrança dessa figura triste... E somos levados a compará-la ao estadista que passou a vida toda a trabalhar para o povo, nunca o enganou. Não poderia enganá-lo. Esforçou-se por vencer o explorador, viu-o morto- e seria idiota supor que, alcançada a vitória, desejasse a ressurreição dele. É desde a juventude,um defensor da classe trabalhadora.Esta expressão, razoável  há trinta e cinco anos,  tornou-se desarrazoada,pois aqui já não  existem classes.Dedica-se ao trabalhador, e efetivamente não há, nos tempos que correm, grande mérito nisto.Difícil foi tomar o partido dos pobres no princípio do século,quando a teimosa resistência o levou á Sibéria e à tortura.... Neste país... o sujeito recebe um mandato e fica na dura contingência de ser honesto.Se admitimos esse infalível procedimento num deputado  ²quirguiz ou siberiano, como pôr em dúvida o homem que,em mais de cinqüenta anos de prodigiosa labuta se transformou em símbolo nacional?No começo, foram os perigos,a  vida subterrânea,o cárcere,o degredo, horríveis sofrimentos e a certeza de conseguir viver bem afastando-se deles; em seguida  a tarefa gigantesca, sem pausa, a construção deste mundo novo que visitamos com assombro.

Não admitimos nenhum culto a pessoas vivas, perfeitamente: a carne é falível, corruptível, inadequada à fabricação de estátuas. Mas não se trata de nenhum culto, suponho: esse tremendo condutor de povos não está imóvel, de nenhum modo se resigna à condição de estátua....O prazer consiste em realizar a obra sem par na maior revolução da historia; receber agradecimentos e louvores miúdos por isto é uma redução a que o grande homem se submete.

Agradecimentos e louvores palpitam na alma da multidão, e recusá-los seria uma ofensa, um erro que nenhum político bisonho cometeria. Na opinião da Senhora Nikolskaya, as coisas não poderiam ser de outro modo. Ela deve conhecer o seu povo....tanto  quanto posso julgar, a defesa desse homem está confiada à multidão. A sua vida constitui um patrimônio valioso demais, e nem imaginam, creio, que alguém deseje atentar contra ela.As salvas de palmas, os vivas extensos, os retratos numerosos, todas as demonstrações infindáveis vistas e ouvidas, são uma prova do sentimento unânime do povo. Enfim, não existe sinal das cautelas excessivas badaladas nas folhas cristãs....
Circunstancias imprevisíveis e malucas me puseram a alguns passos da notável personagem....Deixavam-me passar.E deixavam-me subir a escadaria, galgar as insignificantes barreiras de meio metro, avizinhar-me do homem que a burguesia odeia com razão. Stalin não vive numa toca, defendida por metralhadoras e canhões.”




Notas:
¹Alexandra Nikolskaya, funcionária no Ministério das Relações Exteriores , que fala um português cheio de circunlóquios.Já estivera no Brasil mais precisamente o Rio de Janeiro,na Embaixada Soviética.



² Natural do Quirguistão

-Nota minha: Uma curiosidade: Graciliano Ramos também faleceu em 1953, mesmo ano que Stálin.


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