sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Uma entrevista de León Trotski a León Villanúa (PT/ESP)



Tradução do espanhol para o português de Cristiano Alves

Nota da tradução: A entrevista de Trotski a León foi feita nos anos 20 no Cazaquistão, até então uma região da URSS sem administração própria, mero território sem desenvolvimento e inclusive luz elétrica. No curso da entrevista fica notável, conforme declarado pelo próprio Trotski, que sua casa, como milhares de outras naquela região que hoje é um país, sequer havia energia elétrica, sendo a iluminação feita com lamparina de óleo. Hoje o Cazaquistão é uma das mais desenvolvidas ex-repúblicas soviéticas, um país, e não mais mera região, surgida na era soviética em meados dos anos 30.

Um aspecto interessante da entrevista, disponibilizada pelo site "Ódio de Classe" é a prepotência que Trotski deixa transparecer em inúmeras oportunidades, uma espécie de "Olavo de Carvalho revolucionário". A entrevista tem claros absurdos, como o momento em que Trotski declara ter sido "um dos fundadores do partido bolchevique", embora este tenha ficado a princípio no lado menchevique, como ele mesmo declara e seus biógrafos deixam bem claro. Durante a entrevista, Trotski demonstra sua personalidade messiânica, arrogante, ele nunca pergunta, apenas efetua um monólogo.

De modo a deixar bem clara a tradução para que não restem dúvidas, foi feita a correção ortográfica na tradução, uma vez que o texto de Villanúa tem muitos erros em língua espanhola, mantidos pelo site que a disponibilizou. Bófia, termo que se verá adiante, é uma gíria catalã que significa "polícia", "policial". Segue-se ao texto em português o original em espanhol.

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(...) Só um espanhol de uma coragem e muito pouca preocupação poderia ter chegado até ali; calculei que deveria estar de Madri mais longe do que da lua.

Ao longe, ao horizonte, se viam as montanhas de Tian Chan, do outro lado estava a China.

Na manhã seguinte visitei a Trotsky.

Em local popular, numa casa de madeira, de troncos exteriormente como os demais, e de tábuas com parede dupla no interior e telhado de palha, algo parecido com uma casa americana, porém muito modesta.

Um jardinzinho dianteiro dava à casinha um aspecto de juventude e frescor. Trotsky, na varanda nos esperava.

León Trotsky é um homem de baixa estatura, hombros fortes de atleta, barba e lentes, tal como se vê nas fotografias; entretanto a fotografia não descreve seu gesto duro, a palavra seca, e em situação de comando, o seu semblante autoritário. Ante este homem, uma pessoa se sente dominada e com medo.

Trotsky sorriu, inclinou a cabeça levemente, depois estendeu a mão a mim que o cumprimentava e me introduziu à sua casa. Dentro de uma grande habitação, um divã que servia de cama, uma mesa com muitos papéis e livros, folhetos, jornais em todas as partes, pelas mesas, estantes, no chão, em montes, em caixas, em pacotes. A habitação, de uma grande desolação, um talher de escritor, nem um quadro, nenhuma lembrança; apenas um minúsculo retrato de Lenin com uma dedicatória; uma caixa postal junta ao muro com quatro pregos ou tachinhas

Trotsky usava traje cáqui, jaqueta abotoada até em cima e gorro de palas, também cáqui; como eu tirei a cobertura, rogou-me que me mantivesse coberto.

- Eu nunca me descubro; o chapéu e o gorro é algo que demonstra a civilização; ademais, esfria a cabeça; graças a essas precauções, conservo o meu cabelo charmoso, inveja dos bolcheviques, que são todos calvos...

Eu ri, mas ele permaneceu sério; Trotsky jamais ri; sua cara permanece impassível ante tudo; nos sentamos e começou a entrevista.

- Quem me anunciou a sua visita foi Trotskaya, minha mulher, que virá aqui dentro de uns dias; não quero que esteja mais com essa gente estúpida, filisteus-bolcheviques... Em fim, como verá, todo este desterro é uma coisa boa; eu faço o que quero e ninguém se mete comigo; tenho a minha lâmpada de petróleo(aqui não chegou a eletricidade); tenho minha casa isolada; meus livros, pena, tinta e papel, minhas ferramentas, e estou preparando uma nova revolução.

- Então, você não é bolchevique?

- Eu sou Leon Davidovitsch Trotsky, nada mais! No princípio da guerra mundial fui menchevique; depois, niilista exaltado, anarquista como vocês dizem no ocidente; logo, com o colosso Lenin, fui bolchevique, sem mim não teria crescido; eu sou a ação, sou uma espada... Nunca me rodeei de imbecis que se consideravam superiores a mim.

- Então, você se vê como um gênio.

Trotsky me olhou de forma séria e repulsante:

- Não é que eu me veja como um gênio, é que eu o sou; morto Lenin, aquela grandiosa figura política, não restava mais que eu... E eles tem afastado a mim, ou acreditam que tem afastado, o que não é o mesmo. Stalin, esse camponês estúpido, me obrigou a viver neste rincão do mundo; eu o deixarei fugir para o estrangeiro, como fez com Kerensky e seus comparsas. O estado atual da Rússia é uma paródia indigna do bolchevismo. Você mesmo, se atravessou a Rússia como disse, viu o espetáculo desconsolador do capitalismo com careta. Os filisteus que assaltaram o poder são mais perigosos que os burchui ou que os burugeses; vamos direto para ruína. A Inglaterra, essa dominadora insular, prepara tudo, e em breve, a Rússia se verá invadida pacificamente pelos capitalistas com seus negócios e explorações, seus papéis e títulos fiduciários, que voltarão a afogar o proletário, ao que trabalha, ao que produz. O bandido Stalin tem sob suas ordens Yaroslavski, que dirige a ação contra mim, antes de estar com Stalin, esteve com Denikin... Isso lhe dará uma ideia da classe de homens que dirigem a Rússia. Expulsaram-me do partido por ser indesejável; desterraram-me neste rincão; mas Trotsky é invencível; pode desfazer inimigos mais fortes e inteligentes que Stalin e companhia, eu os pulverizarei. Estas guerras internas não ajudam mais que a Inglaterra, a rainha do capitalismo.

- E sobre a Espanha, que opinião você tem?

- A Espanha... Só a vi no aspecto inquisitorial ou policial; tem uns cárceres muito graciosos. Você verá o que ocorreu. Eu residia em Paris (1) lá pelo ano de 1916 e trabalhava em um jornal francamente derrotista; a mim não interessava nem o triunfo da Alemanha, mas tampouco queria o triunfo do militarismo francês; em uma palavra, eu sempre fui furioso antimilitarista, algo que não obstou para que depois fosse um excelente militar e criasse o Exército Vermelho, que combateu com êxito todos os inimigos da Rússia. Eu fui muita coisa, e em tudo me distingui. O general von Kamp disse de mim que era o primeiro ministro da guerra que a Rússia havia tido, já que todos os anteriores foram todos uns cavalheiros com uniformes brilhantes, mas que conduziam os exércitos como os pastores a ovelhas. Pois em 1916 eu escrevia uns artigos em Nossa Palavra e Nossa Voz, que fizeram com que a polícia francesa me expulsasse como indesejável com uma recomendação à polícia espanhola de anarquista perigosíssimo. A ponto de passar na fronteira a bófia espanhola (creio que esse é o nome desrespeitoso com que os delinquentes espanhóis a chamam).

- Sim, senhor, assim se chama na gíria do crime.

- Pois a bófia deixou dois agentes amabilíssimos à minha disposição que me tornaram a viagem amarga; ademais, falavam um francês espanholizado ininteligível para um russo. Em Madri encontrei uma sociedade inesperada: gente preparada para toda classe de coisas, mas que não faziam mais do que falar; em Madri se fala muito, mas não se faz nada absolutamente. Meu antigo correligionário e compatriota Tasin, um homem inteligente que fala espanhol fluente, que idioma não falará Tasin, mas para este homem, as gramáticas não tem segredos, fala todos os idiomas conhecidos e por conhecer... Em fim, Tasin havia estado comigo preso na Sibéria, e em Madri reavivamos a nossa antiga amizade. Eu não levava ânimos revolucionários a Espanha, queria unicamente descansar um pouco para orientar-me na nova luta que se avizinhava; mas a bófia se encheu de suspeitas (a suspeita é um talento de todos os tontos ou o regime de governo dos covardes). Bem, sem motivo nem causa me encarceraram no Cárcere Modelo de Madri. Um empregado me perguntou de forma cortês:

- Você quer uma cela paga? Temos as de primeira, que custam 2,50 pesetas diárias, de segunda, a 1,50 diárias, e as gratuitas para presos pobres.

Eu fiquei admirado em encontrar-me num cárcere que cobrava hospedagem, nem mais nem menos que um tipo de hotel. Logo depois me informei sobre uma cantina onde também se comia por pouco dinheiro; aos presos era dada uma refeição repugnante. No dia seguinte, depois de ter que sofrer a afronta de ser fichado (na Direção de Segurança haviam me fichado e fotografado no dia anterior); digo que, depois das complicadas medidas bertilhonescas, passei visita ante o médico da prisão, um senhor idoso e alto, uniformizado com gorro de palas, que me perguntou em tom autoritário:

- Você tem sarna, piolho ou lêndias?

- Ante minha resposta negativa, me colocaram na cela de 2,50 (pago adiantado) e fiquei ali até que me tiraram do pátio, onde conheci uma porção de famosos ladrões, estelionatários e assassinos que faziam sua cura de repouso esperando o dia do juízo oral. No final, me retiraram daquele sanatório e me reuni com minha mulher; mas me ordenaram que que marchasse a Cádiz para embarcar para a Argentina. Eu escrevi uma carta muito justa ao ministro daquela província, que era o senhor Romanones, onde expunha a minha queixa, se me expulsavam sem motivo algum e só por que a polícia francesa havia feito aquela recomendação de homem de ação terrível. Não obtive resposta e me levaram a Cádiz, queriam que eu pagasse a viagem de trem... Em fim, na Espanha, o que tem dinheiro se diverte. Em Cádiz nem o governador falava francês; tive por intérprete o vice-cônsul alemão, um inimigo, pois a Rússia estava em guerra com a Alemanha. Esperei até chegar o navio que me conduziria à América do Sul, e tentei, segundo dizem ali, um destino mais aceitável; eu queria ir a América do Norte, país que conhecia e onde poderia viver melhor; por fim, eu consegui e embarquei para os Estados Unidos. Ali, trabalhos e lutas, e, por fim, a vitória. Creio que a atual situação na Rússia é um desastre; vamos direto para um bonapartismo ou um mussolinismo, em fim, algo pessoal e idiota.

Trotski, enquanto falava, se balançava na cadeira, não me olhou e nem sorriu uma só vez; é o homem mais estranho que conheci, algo temeroso. Iniciei as perguntas:

- Você é crente ortodoxo?

- Não me pergunte bobagens, nem me tome por uma velha estúpida ou um burguês.

- Militarista ou pacifista?

- Uns dias uma coisa, outros dias, outra, segundo a marcha de sucessos; consegui criar o Exército Vermelho, e ademais fiz com que o patriotismo, que era desconhecido entre os camponeses do tzar, seja um anseio popular; os russos possuem a terra e a defenderão com armas na mão; os outros tipos de patriotismo são de capachos de banqueiros. Ao terminar a guerra, depois do Tratado de paz de Brest-Litovsk, o Exército Russo se esfacelou, se dissolveu; cada soldado voltou para seu povo levando fuzil e munição; de passagem, levou também o que encontrou adiante, e ao chegar em seu povoado recebeu a propriedade da terra que proporcionalmente que correspondia, segundo o reparte local; a isso se deve o êxito do bolchevismo, o único partido político que não oferecia nada e que dava tudo. Outros soldados trouxeram os canhões e metralhadoras e, acostumados a levar uma vida irregular e homicida na guerra, estes soldados formaram bandos de foragidos que semeavam o terror e a desolação, roubaram, assassinaram e pilharam o que quiseram; quando assaltamos o Poder, tivemos primeiro que transigir com estes desamortizadores do capital, e logo, quando fomos fortes em eliminá-los; haviam suprimido aos burgueses de modo expeditivo e radical; os poucos que restaram foram destruídos por Dzerjinskiy com sua Tcheka. Só um talento tão superior como o de Lenin, o mais sagaz dos políticos, o mais eminente dos russos, pôde, dentro de um partido pequeno, sem prestígio nem partidários, torná-lo o único partido político da Rússia, aproveitando conjunturas e oportunidades, desfazendo-se do que fazia, em fim, empregando constantemente probativas que algumas vezes não saíam mal, mas que ele sabia conduzir com êxito transformando a tudo constantemente. Nosso partido era o que menos deputados tinha na Assembléia Constituinte, reunida na Duma por sufrágio universal; então acordamos(Lenin e eu) e nos apoderamos do poder; eu contava com os marinheiros de Kronstadt e com o cruzador Aurora, ancorado na desembocadura do Neva, de fato, era difícil levá-los a uma ação isolada contra o que acreditavam ser a vontade nacional; Lenin os eletrizou com um só discurso, e no dia seguinte começamos a nossa ação cercando Kerensky e companhia. Resolvemos todos os problemas sem contar com ninguém. Tivemos que impor o que era, a nosso critério, a verdade; nós, o Governo, não admitíamos discussões nem reparos que afogassem a revolução, pois os verdadeiros revolucionários eram uma minoria exígua. Nossa finalidade era suprimir o capitalismo e o conseguimos; todas as revoluções, menos a Comuna de Paris em 1871 e a nossa, tem pactuado com o capital, com a propriedade, com a Igreja e com os demais estúpidos poderes arcaicos burgueses; nós suprimimos a propriedade, o Exército, a Igreja, o capital, a justiça burguesa, o negócio, quer dizer, a exploração. E claro, as classes populares, o povo ignorante e sofrido, veio conosco e hoje constitui uma classe forte de um arraigo extraordinário, impossível de destruir porque tem algo a perder e porque tem a razão e a força; mas... em nosso partido havia também gente estúpida e passional que aspirava ao triunfo pessoal, e os homens da velha Guarda, os bolcheviques de 17, foram sendo apartados do Poder pouco a pouco e substituídos por gente estúpida e ignorante. Eu estou desterrado e expulso de um partido que fundei... mas a nossa revolução é imortal. Poderão fazer muitas evoluções na Rússia (as revoluções são impossíveis), mas o capitalismo não voltará.

Trotsky se levantou, a entrevista havia terminado sem um sorriso, me estendeu as mãos e então seu rosto se transformou, suas lentes oscilaram no nariz, Trotsky ria forte dizendo:

- Você dê à Polícia de Madri e aos empregados do Cárcere-Hotel minhas lembranças mais expressivas. Eles não puderam compreender o pássaro que tinham na jaula quando eu era habitante da primeira galeria. Os alemães também se equivocaram conosco, pois sei de um general prussiano que durante a revolta de 1918 e a revolução comunista afogada em sangue, disse: “Se eu soubesse dos homens que iam nesse célebre vagão selado, eu o teria feito voar com uma dinamite”, como fizeram com Liebnecht e Rosa Luxemburgo, assassinados vilmente pelos soldados. Não há homem pequeno, e triunfar com partidários e força não tem mérito e nem é sólido; o caso é o nosso: triunfar com a pena e o motim, e fazer a vitória indestrutível; no fim, eu agora preparo algo que assombrará o mundo. Eu mesmo, que não me assusto com nada, estou um pouco inquieto.

Aquela saída final me desconcertou. Trotsky, que havia começado o parágrafo rindo, o acabou sério, com as mandíbulas apertadas e olhar feroz.

Me acompanhou até a porta, me estendeu a mão outra vez e me virou as costas...

Naquele mesmo dia comecei o regresso (...)
  1. No ensaio de Dom Miguel de Unamuno “Como se faz uma novela”, dado a imprensa em língua francesa em 1926 e em castelhano em 1927, pode-se ler: “(...) passo a maior parte de minhas manhãs só, nesta jaula cercada pela praça dos Estados Unidos. Depois do almoço vou à Rotonda de Monparnasse, esquina do bulevar Rapail, onde temos uma pequena reunião de espanhóis, jovens estudantes a maioria, e comentamos raras notícias que nos chegam da Espanha, da nossa e dos outros, e recomeçamos cada dia a repetir as mesmas coisas, levando-se, como se diz aqui, castelos na Espanha. Nessa Rotonda alguns procuram aqui por Trotsky, pois parece que ali acudia, quando desterrado em Paris, esse caudilho bolchevique.”

Essa mesma nota figura incluída em “Uma entrevista ao camarada Stalin”, tal como a publicou Kimetz no 24 de junho passado. A nota vinha explicar a quem se referia Stalin quando falava dos “revolucionários de Montparnasse”. Trotski também o deixa claro.



ORIGINAL

(…) Sólo un español de mi temple y mi poca preocupación podía haber llegado hasta allí; calculé que debía estar de Madrid más lejos que de la luna.

A lo lejos, en el horizonte, se veían las montañas de Tian Chan; al otro lado estaba China.

A la mañana siguiente visité a Trotsky.

En las afueras del pueblo, en una casa de madera, de troncos exteriormente como las demás, y de tablas con doble pared en el interior y tejado de cinc, algo de cottage americano, pero muy modesto.

Un jardincillo delantero daba a la casilla aspecto de juventud y frescura. Trotsky, en el porche o verandaw (sic), nos esperaba.

León Trotsky es hombre de baja estatura, hombros fuertes de atleta, barba y lentes, tal como se le ve en las fotografías; pero lo que no dice la fotografía es el gesto duro, la palabra seca, el ademán de mando, lo autoritario de todo su continente. Ante este hombre se siente uno dominado y medroso.

Trotsky se sonrió, inclinó la cabeza levemente; después estrechó la mano que yo le tendía y me introdujo en la casa. Dentro de una habitación grande, un diván que le servía de cama, una mesa con muchos papelotes y libros, folletos, periódicos por todas partes, por las sillas, en estantes, en el suelo, en montones, en cajas, en paquetes. La habitación, de una grande desolación, un taller de escritor; ni un cuadro, ni un recuerdo; sólo un minúsculo retrato de Lenín (sic) con sentida dedicatoria; una tarjeta postal adherida al muro con cuatro chinches o tachuelas.

Trotsky llevaba traje de kaki, guerrera abrochada hasta arriba y gorra de plato, también de kaki; como yo me descubriera, me rogó que si quería siguiera cubierto.

-Yo no me descubro nunca; el sombrero y la gorra es algo que demuestra la civilización; además se enfría la cabeza; gracias a estas precauciones conservo mi hermoso pelo, envidia de los bolcheviques en candelero, que todos son calvos…

Yo reí, pero él permaneció serio; Trotsky no ríe jamás; su cara permanece impasible ante todo; nos sentamos y empezó la interviú.

-Me anunció su visita de usted la Trotskikaya, mi mujer, que vendrá aquí dentro de unos días; no quiero que esté más con esa gente estúpida, bolchevique-filistea... En fin, como verá, esto del destierro es una cosa buena; yo hago lo que quiero y nadie se mete conmigo; tengo mi lámpara de petróleo (aquí no ha llegado todavía la electricidad); tengo mi casa aislada; mis libros, pluma, tinta y papel, mis herramientas, y estoy preparando una nueva revolución.

-Entonces, ¿usted no es bolchevique?

-¡Yo soy León Davidowitsch Trotsky nada más! Al principio de la guerra mundial fuí menchevique; después, nihilista exaltado, anarquista que dicen ustedes en Occidente; luego, con el coloso Lenín (sic), fui bolchevique; sin mí no hubiese llegado arriba; yo soy la acción, soy una espada… Nunca me he rodeado más que de imbéciles que se han creído superiores a mí.

-Entonces, usted se cree un genio.

Trotsky me miró serio y repuso:

-No es que me crea un genio, es que lo soy; muerto Lenín (sic), aquella grandiosa figura política, no quedaba más que yo... Y a mí me han apartado, o creen que me han apartado, que no es lo mismo. Stalin, ese estúpido campesino, me ha obligado a vivir en este rincón del mundo; yo le haré huir al extranjero, como hice con Kerensky y comparsas. El estado actual de Rusia es una parodia indigna del bolchevismo. Usted mismo, si ha atravesado Rusia como dice, habrá visto ese espectáculo desconsolador del capitalismo con careta. Los filisteos que asaltaron el Poder son más peligrosos que los burchui o burgueses; vamos derechos a la ruina. Inglaterra, esa dominadora insular, lo prepara todo, y en muy próximo tiempo, Rusia se verá invadida pacíficamente por los capitalistas con sus negocios y explotaciones, sus papeles y títulos fiduciarios, que volverán a ahogar al proletario, al que trabaja, al que produce. El bandido de Stalin tiene a sus órdenes a Jaroslawki, jefe de la Comisión de Control del Partido Comunista; este Jaroslawki, que dirige la acción contra mí, antes de estar con Stalin, estuvo con Denikin… Esto le dará a usted idea qué clase de hombres dirigen a Rusia. Me han expulsado del partido por indeseable; me han desterrado a este rincón; pero Trotsky es invencible; puede deshacer a enemigos más fuertes e inteligentes que Stalin y compañía, y los pulverizaré. Estas guerras intestinas no aprovechan más que a Inglaterra, la reina del capitalismo.

-¿Y de España, qué opinión tiene usted?

-A España… Sólo la he visto en el aspecto inquisitorial o policíaco (sic); tiene unas cárceles muy graciosas. Verá usted lo que pasó. Yo residía en París (1) allá por el año 1916 y trabajaba en un periódico francamente derrotista; a mí no me interesaba el triunfo de Alemania, pero tampoco quería el triunfo del militarismo francés; en una palabra, yo siempre fui furioso antimilitarista, lo cual no obsta para que después fuese un excelente militar y crease el Ejército rojo, que combatió con éxito a todos los enemigos de Rusia. Yo he sido de todo, y en todo me he distinguido. El general von Kamp dijo de mí que era el primer ministro de la Guerra que había tenido Rusia, ya que los ministros anteriores fueron todos unos calabazas con brillantes uniformes, pero que conducían los ejércitos como los pastores las ovejas. Pues en 1916 yo escribía unos artículos en Nuestra Palabra y Nuestra Voz, que hicieron que la Policía francesa me expulsaran (sic) por indeseable con una recomendación a la Policía española de anarquista peligrosísimo. A poco de pasar la frontera, la bofia española (creo que es éste el nombre despectivo con que los delincuentes españoles la nombran).

-Sí, señor; así se la llama en el argot del crimen.

-Pues la bofia me puso dos agentes amabilísimos a mi disposición que me hicieron el viaje amargo; además hablaban un francés españolizado ininteligible para un ruso. En Madrid encontré una sociedad inesperada: gente preparada para toda clase de cosas, pero que no hacía nada más que hablar; en Madrid se habla mucho, pero no se hace nada absolutamente. Mi antiguo correligionario y compatriota Tasin, un hombre inteligente que habla el español de corrido, ¡qué idioma no hablará Tasin!; para este hombre, las gramáticas no tienen secretos, habla todos los idiomas conocidos y por conocer… En fin, Tasin había estado conmigo preso en Siberia, y en Madrid reanudamos nuestra antigua amistad. Yo no llevaba ánimos revolucionarios a España, quería únicamente descansar un poco para orientarme en la nueva lucha que se avecinaba; pero la bofia se enredó en suspicacias (la suspicacia es el talento de los tontos o el régimen de gobierno de los cobardes). ¡Bueno! Sin motivo ni causa me encerraron en la Cárcel Modelo de Madrid. Un empleado me preguntó cortés:

-¿Usted quiere una celda de pago? Las tenemos de primera, que cuestan 2,50 pesetas diarias; de segunda, a 1,25 diarias, y gratuitas para los presos pobres.

Yo quedé admirado de encontrarme en una cárcel que cobraba el hospedaje, ni más ni menos que una fonda u hotel. Luego me informé de una cantina donde también se comía por poco dinero; a los presos pobre les daban un rancho repugnante. Al día siguiente, después de tener que sufrir la afrenta de ser fichado (en la Dirección de Seguridad me habían fichado y fotografiado el día anterior); digo que, después de las complicadas medidas bertillonescas, pasé visita ante el médico de la prisión, un señor viejo y alto, uniformado con gorra de galones, que me preguntó en tono autoritario:

-¿Tiene usted sarna, piojos o ladillas?

-A mi respuesta negativa me encerraron en una celda de 2,50 (pago adelantado), y allí estuve hasta que me sacaron al patio, donde conocí a una porción de distinguidos ladrones, estafadores y asesinos que hacían su cura de reposo esperando el día del juicio oral. Al fin, me sacaron de aquel sanatorio y me reuní con mi mujer; pero me ordenaron que marchase a Cádiz para embarcar a la Argentina. Yo escribí una carta muy justa al ministro de la Gobernación, que era el señor Romanones, donde le exponía mi queja de que se me expulsara sin haber hecho motivo alguno y sólo porque la Policía francesa había hecho aquella recomendación de hombre de acción terrible. No obtuve respuesta, y me llevaron a Cádiz; querían que yo me pagase el viaje del ferrocarril… En fin, en España, el que tiene dinero se divierte. En Cádiz no hablaba francés ni el gobernador; tuve por intérprete al vicecónsul alemán, un enemigo, porque Rusia estaba en guerra con Alemania. Esperé mientras llegaba el buque que me conduciría a América del Sur, y trabajé, según dicen allí, un destino más apetecible; yo quería ir a América del Norte, país que yo conocía y donde podría vivir mejor; por fin, lo conseguí, y me embarqué para los Estados Unidos. Allí, trabajos y luchas y, por fin, la victoria. Creo que la actual situación en Rusia es un desastre; vamos derechos a un bonapartismo o un mussolinismo; en fin, algo personal e idiota.

Trotsky, mientras hablaba, se balanceaba en la silla, no me miró ni se sonrió una sola vez; es el hombre más extraño que he conocido. Algo temeroso inicié las preguntas:

-Usted, ¿es creyente ortodoxo?

-No pregunte tonterías, ni me tome por una vieja estúpida o un bourchui.

-¿Militarista o pacifista?

-Unos días, una cosa, y otros, otra, según la marcha de los sucesos; he conseguido crear el Ejército rojo, y además hice que el patriotismo, que era desconocido entre los campesinos del zar, sea un anhelo popular; los rusos poseen la tierra y la defenderán con las armas en la mano; los otros patriotismo son cábalas de banqueros. Al terminar la guerra, después del Tratado de paz de Brest-Litovsk, el Ejército ruso se esfumó, se disolvió; cada soldado se fue a su pueblo llevándose el fusil y los cartuchos; de paso, se llevó también lo que encontró por delante, y al llegar a su pueblo recibió en propiedad la tierra que proporcionalmente le correspondía, según el reparto local; a esto se debe el éxito del bolchevismo, el único partido político que no ofrecía nada y que daba todo. Otros soldados se trajeron los cañones y ametralladoras y, acostumbrados a la vida irregular y homicida de la guerra, estos soldados formaron unas bandas de forajidos que sembraron el terror y la desolación, robaron, asesinaron y pillaron lo que quisieron; cuando nosotros asaltamos el Poder tuvimos a lo primero que transigir con estos desamortizadores del capital, y luego, cuando fuimos fuertes los eliminamos; pero ellos, antes, habían suprimido a los burgueses de un modo expeditivo y radical; los pocos que quedaron los destruyó Djerchinky (sic) con su Cheka. Sólo un talento tan superior como el de Lenín (sic), el más sagaz de los políticos, el más eminente de los rusos, pudo, de un partido pequeño, sin prestigio ni partidarios apenas, hacer el único partido de Rusia, aprovechando coyunturas y oportunidades, desdiciéndose de los que hacía, en fin, empleando constantemente probatinas que algunas veces nos salían mal, pero que el sabía conducir a éxito transformando constantemente todo. Nuestro partido era el que menos diputados contaba en la Asamblea Constituyente, reunida en la Duma por sufragio universal; entonces acordamos (Lenín (sic) y yo) apoderarnos del Poder; yo contaba con los marineros de Kronstadt y con el crucero Aurora, anclado en la desembocadura del Neva, sin embargo, era difícil resolverlos a una acción aislada contra lo que creían voluntad nacional; Lenín (sic) los electrizó con un solo discurso, y al siguiente día empezamos nuestra revolución echando a Kerensky and Co. Resolvimos todos los problemas sin contar con nadie. Hubo que imponer lo que era, a nuestro criterio, la verdad; nosotros, Gobierno, no admitíamos discusiones ni reparos que hubieran ahogado la revolución, pues los verdaderos revolucionarios éramos una exigua minoría. Nuestra finalidad era suprimir el capitalismo y lo conseguimos; todas la revoluciones, menos la Commune de París en 1871 y la nuestra, han pactado con el capital, con la propiedad, con la Iglesia y con los demás estúpidos poderes arcaicos burgueses; nosotros suprimimos la propiedad, el Ejército, la Iglesia, el capital, la justicia burguesa, el negocio, es decir, la explotación. Y claro, las clases populares, el pueblo ignorante y sufrido, vino con nosotros y hoy constituye una clase fuerte de un arraigo extraordinario, imposible de destruir porque tiene algo que perder y porque tiene la razón y la fuerza; pero… en nuestro partido había también gente estúpida y pasional que anhelaba el triunfo personal, y los hombres de la vieja Guardia, los bolcheviques del 17, han sido apartados del Poder poco a poco y sustituídos (sic) por gentes estúpidas e ignorantes. Yo estoy desterrado y expulsado de un partido que fundé…, mas nuestra revolución es inmortal. Podrán hacerse muchas evoluciones en Rusia (las revoluciones son imposibles), pero el capitalismo no volverá.

Trotsky se levantó, la entrevista había terminado sin una sonrisa; me alargó la mano y entonces su rostro se transformó, sus lentes oscilaron en la nariz, Trotsky se reía fuerte diciendo:

-Dará usted a la Policía de Madrid y a los empleados de la Cárcel-Hotel mis recuerdos más expresivos. Ellos no pudieron comprender el pájaro que tenían en la jaula cuando yo era habitante de la primera galería. Los alemanes también se equivocaron con nosotros, pues sé de un general prusiano que cuando la revuelta de 1918 y la revolución comunista ahogada en sangre, dijo: “Si hubiera sabido los hombres que iban en el célebre vagón precintado, lo hubiera volado con dinamita”, como hicieron con Liebnecht y Rosa Luxemburgo, asesinados vilmente por los soldados. No hay hombre pequeño, y triunfar con partidarios y fuerza no tiene mérito ni es sólido; el caso es el nuestro: triunfar con la pluma y el mitin, y hacer la victoria indestructible; en fin, yo ahora preparo algo que asombrará al mundo. Yo mismo, que no me asusto de nada, estoy un poco inquieto.

Aquella salida final me desconcertó. Trotsky, que había empezado el párrafo riendo, lo acabó serio, con las mandíbulas apretadas y la mirada feroz.

Me acompañó hasta la puerta, me estrechó la mano otra vez y me volvió la espalda…

Aquel mismo día emprendí el regreso (…)


***

(1) En el ensayo de Don Miguel de Unamuno “Cómo se hace una novela”, dado a la estampa en lengua francesa en 1926 y en castellano en 1927, se puede leer: “(…) paso la mayor parte de mis mañanas solo, en esta jaula cercana a la plaza de los Estados Unidos. Después del almuerzo me voy a la Rotonda de Montparnasse, esquina del bulevar Raspail, donde tenemos una pequeña reunión de españoles, jóvenes estudiantes la mayoría, y comentamos las raras noticias que nos llegan de España, de la nuestra y de la de los otros, y recomenzamos cada día a repetir las mismas cosas, levantando, como aquí se dice, castillos en España. A esa Rotonda se le sigue llamando acá por algunos la de Trotski, pues parece que allí acudía, cuando desterrado en París, ese caudillo bolchevique.”
Esta misma nota figura incluida en “Una entrevista al camarada Stalin” tal como la publicó Kimetz el pasado 24 de junio. La nota venía a explicar a quién se refería Stalin cuando hablaba de los “revolucionarios de Montparnasse”. Trosqui también lo deja claro.

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