segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Stálin: O mito e a realidade



William B. Bland



Hoje quase todo mundo que se auto-denomina Marxista-Leninista reconhece que, em seus últimos anos, o Partido Comunista da URSS estava dominado pelos revisionistas – isso é, por pessoas que se proclamavam marxista-leninistas mas que tinham na realidade distorcido o Marxismo-Leninismo para servir aos interesses de uma embrionária classe capitalista.

Mas há uma questão, no entanto, em que ainda há divergências: quando começou a dominação dos revisionistas sobre o PCUS?

Atualmente a maioria das pessoas apontam a data do 20º Congresso do PCUS, em 1956, quando Kruschev retirou a sua máscara de Marxista-Leninista.


Entretanto, há boas razões para acreditar que já muitos anos antes da morte de Stálin, em 1953, a maioria da liderança soviética era de revisionistas latentes ou camuflados.

Por que, por exemplo, Stálin, que desempenhou um papel ativo no movimento comunista internacional na década de 1920, cessou de fazê-lo depois de 1926?

Por que a publicação das obras de Stálin, programadas para 16 volumes, parou no volume 13 em 1949, quatro anos antes de sua morte?

Por que não foi pedido a Stálin que entregasse o relatório do Comitê Central no 19º Congresso em 1952?

Por que os últimos escritos de Stálin foram confinados a assuntos como linguística e à crítica de um livro de economia – assuntos que poderiam ser considerados inofensivos para revisionistas camuflados caso Stálin não os tivesse transformado em ataques às idéias revisionistas?

Por que o governo soviético surpeendeu a opinião pública mundial em 1947 ao de repente reverter sua política internacional para endossar a proposta estadunidense pela partição da Palestina que provou ser tão desastrosa para as nações do Oriente Médio?

Tudo isso faz sentido se – e eu acredito que somente se – aceitarmos o fato de que por alguns anos antes de sua morte, Stálin e seus companheiros Marxista-Leninistas eram uma minoria na liderança da União Soviética.

A existência de uma maioria revisionista na liderança do PCUS foi efetivamente camuflada por um “culto à personalidade” que foi construído ao redor de Stálin.

O próprio Stálin criticou e ridicularizou este “culto” em inúmeras ocasiões. E mesmo assim ele continou.

Disso se segue que Stálin era ou um ultra-hipócrita ou que ele era incapaz de dar um basta neste “culto”.

Quem começou este “culto à personalidade” ao redor de Stálin foi, de fato, Karl Radek, que se confessou culpado por traição em seu julgamento público em 1937.

Um exemplo típico deste “culto” é a seguinte citação de 1936:

“Miseráveis pigmeus! Eles levantaram suas mãos contra o maior de todos os homens, nosso sábio líder, camarada Stálin. Nós lhe garantimos, camarada Stálin, que iremos reforçar nossa vigilância stalinista ainda mais e cerraremos nossas fileiras ao redor do Comitê Central Stalinista e do grande Stálin.”

O autor dessas palavras era um tal Nikita Kruschev, que em 1956 denunciou o “culto” como uma indicação da “vaidade” e do “poder pessoal” de Stálin.
Foi Kruschev também que introduziu o termo “vozhd” para Stálin – um termo significando “líder” e equivalente do termo nazista Führer.

Por que os revisionistas construíram este “culto à personalidade” ao redor de Stálin?

Foi, na minha opinião, porque isso disfarçava o fato de que não era Stálin e os Marxista-Leninistas, mas eles – oponentes camuflados do socialismo – que tinham uma maioria na liderança. Isso os possibilitou tomar atitudes – como a prisão de várias pessoas inocentes entre 1934 e 1938 (quando eles controlavam as forças de segurança) e subsequentemente jogar sobre Stálin a culpa das “distorções da legalidade socialista”.

O próprio Stálin em um registro diz ao autor alemão Lion Feuchtwanger em 1936 que o “culto à sua personalidade” estava sendo construído por seus oponentes políticos:

“... com o objetivo de me desacreditar em uma data posterior.”

Claramente, a “suspeita paranóica” de Stálin em relação a alguns de seus colegas, da qual Kruschev reclamou tão amargamente em seu pronunciamento secreto no 20º Congresso, não era nada paranóica na verdade!

Em um ponto tanto Stálin quanto os revisionistas estão de acordo – que na época de Stálin alguns erros judiciais ocorreram nos quais pessoas inocentes foram judicialmente assassinadas.

Os revisionistas, é claro, sustentam que Stálin foi responsável por esses erros judiciais.

Mas há uma contradição aqui.

O próprio Kruschev disse em seu pronunciamento secreto de 1956:

“A questão aqui é complicada pelo fato de que tudo isso foi feito por Stálin estar convencido de que isso era necessário para a defesa dos interesses da classe trabalhadora contra a conspiração de inimigos. Ele via isso do ponto de vista dos interesses da classe trabalhadora, do interesse da vitória do socialismo.”

Mas apenas uma pessoa completamente insana poderia imaginar que a prisão de pessoas inocentes poderia servir à causa do socialismo. E todas as evidências mostram que Stálin manteve suas faculdades mentais até a sua morte.

Entretanto, a contradição se resolve se estes assassinatos judiciais tiverem sido perpetrados não sob o comando de Stálin, mas sob as ordens dos revisionistas oponentes do socialismo.

Em seu julgamento público em 1938, o antigo Comissário do Povo para Assuntos Internos, Genrikh Yagoda, se confessou culpado por ter arranjado o assassinato de seu predecessor, Vyacheslav Menzhinsky, para assegurar sua própria promoção para um posto que lhe daria controle sobre os serviços de segurança soviética. Ele então, de acordo com sua própria confissão, se utilizou dessa posição para proteger terroristas responsáveis pelo assassinato de proeminentes Marxista-Leninistas próximos a Stálin – incluindo o Secretário do Partido de Leningrado, Sergei Kirov, e o famoso escritor Maksim Gorky.

E para que os serviços de segurança não dessem a impressão de estarem ociosos, Yagoda providenciou a prisão de várias pessoas que não era conspiradoras, mas que tinham apenas sido “indiscretas”.

Depois da prisão de Yagoda, os conspiradores tiveram sucesso ao lhe suceder com um outro conspirador, Nikolai Yezhov, que continou e intensificou este processo.

Foi por causa da suspeita de Stálin e dos Marxista-Leninistas de que os serviços de segurança estavam agindo erroneamente – estavam protegendo os culpados e punindo os inocentes – que eles começaram a usar o secretariado pessoal de Stálin, chefiado por Aleksandr Poskrebyshev, como sua agência particular de detetives.

E foi sobre a base da evidência descoberta pelo seu secretariado e enviada diretamente ao Partido que os revisionistas camuflados, para manter seu disfarce, foram obrigados a apoiar a prisão de genuínos conspiradores, incluindo Yagoda e Yezhov.

E foi por iniciativa pessoal de Stálin que em 1938, seu amigo, o Marxista-Leninista Lavrenty Beria, foi trazido para Moscou desde o Cáucaso para tomar conta dos serviços de segurança.

Sob Beria, prisioneiros políticos que haviam sido presos por Yagoda e Yezhov tiveram seus casos revistos e, conforme os correspondentes da imprensa ocidental relataram naquela época, milhares de pessoas injustamente sentenciadas foram soltas e reabilitadas.

Os Marxista-Leninistas da Inglaterra, em particular, não deveriam ter nenhuma dificuldade em visualizar o quadro de uma minoria Marxista-Leninista no PCUS.

Quantos membros do Partido Comunista da Grã-Bretanha fizeram oposição ao revisionista “Caminho Britânico para o Socialismo”, que pregava o absurdo do “caminho parlamentar para o socialismo” quando estava sendo adotado em 1951? Eu sei de apenas quatro.

A questão surge, então:

Se os revisionistas tinham uma maioria na liderança do PCUS a partir de 1930, por que eles não fizeram nada para desmantelar o socialismo até 1956, depois da morte de Stálin?

A resposta é que eles tentaram mas não conseguiram.

No início dos anos 1940, os economistas Eugen Varga e Nikolai Voznsensky publicaram livros expondo abertamente programas revisionistas, mas ambos foram rapidamente refutados pelos Marxista-Leninistas.

Claro, é importante não exagerar a extensão desses erros judiciais.
Nos anos 1960, a propaganda anti-soviética originalmente publicada na Alemanha Nazista foi republicada por um ex-agente secreto britânico chamado Robert Conquest sob o respeitável disfarce da Universidade de Harvard. No seu livro “O grande terror”, de 1969, Conquest aponta o número de “vítimas de Stálin” entre “5 e 6 milhões”.

Mas nos anos 1980 Conquest alegava que em 1939 havia um total entre 25 e 30 milhões de prisioneiros na União Soviética, e que em 1950 havia 12 milhões de prisioneiros políticos.

Mas quando, sob Gorbachev, os arquivos do Comitê Central do PCUS foram abertos aos pesquisadores, descobriu-se que o número de prisioneiros políticos em 1939 havia sido de 454.000, e não os milhões que pretendia Conquest.

Se adicionarmos a estes os presos por crimes não políticos, chegamos à soma de 2,5 milhões, ou seja, 2,4% da população adulta.

Em contraste, havia nos Estados Unidos em 1996, de acordo com os números oficiais, 5,5 milhões de pessoas na prisão, o que corresponde a 2,8% da população adulta.

Ou seja, o número de prisioneiros nos EUA nesta data estava 3 milhões acima do maior número que já houve na União Soviética.

Em janeiro de 1953, menos que dois meses antes da morte de Stálin, nove médicos trabalhando no Kremlin foram presos acusados de assassinar certos líderes soviéticos – incluindo Andrei Zhdanov em 1948, aplicando-lhes deliberadamente tratamento médico incorreto.

As acusações surgiram a partir de investigações baseadas nas alegações de uma médica, Lydia Timashuk. Os médicos suspeitos foram formalmente acusados por conspiração por assassinato juntamente com a organização americana zionista “JOINT”.

Correspondentes da imprensa ocidental em Moscou insistiam que alguns dos mais proeminentes líderes soviéticos estavam sob investigação em conexão com o caso.

Mas antes que o caso viesse a julgamento, Stálin convenientemente morreu.

O albanês Marxista-Leninista Enver Hoxha, um incansável oponente do revisionismo e não dado a fofocas infundadas, insiste que os líderes revisionistas soviéticos admitiram – ou melhor, que se vangloriaram – de que o haviam matado. E sabemos que o próprio filho de Stálin foi preso por ter declarado que seu pai havia sido morto como parte de um complô.

Seja como for, os doutores que haviam sido presos foram imediatamente soltos e oficialmente “reabilitados”.

Então Lavrenti Beria – um caçador de revisionistas que ficava atrás apenas de Stálin – foi preso em um golpe militar, julgado em segredo e executado.

O caminho foi aberto aos conspiradores revisionistas para tirarem suas máscaras, expulsar os remanescentes Marxista-Leninistas das posições de direção do Partido e dar os primeiros passos rumo à restauração do capitalismo.


CONCLUSÃO

Este é o retrato de Stálin que surge de um exame objetivo dos fatos.
É o retrato de um grande Marxista-Leninista que lutou toda a sua vida pela causa do socialismo e pela classe trabalhadora.

É o retrato de um grande Marxista-Leninista que, apesar de cercado por traidores revisionistas, conseguiu evitar durante toda sua vida que essa maioria revisionista traísse a classe trabalhadora que ele amava e que restaurasse o sistema capitalista que ele odiava.

Nós que tomamos como tarefa a reconstrução do movimento comunista internacional devemos ver a defesa de Stálin como parte da defesa do Marxismo-Leninismo.

Não pode haver honra maior a qualquer um que aspira ser um Marxista-Leninista do que ser chamado de Stalinista.



Este esboço seria originalmente apresentado por Bill Bland na conferência “Luta Internacional: Marxista-Leninista” em outubro de 1999, em Paris.

Esta fala nunca foi pronunciada, pois o camarada Bland não pôde comparecer. Ela é no entanto oferecida como a essência de várias décadas de pensamento e de sólidas, concretas e factuais pesquisas marxista-leninistas. Esta fala se originou de uma outra que o camarada Bland proferiu à juventude da Liga Comunista em 1975 em um curso de férias. Ela foi amplamente distribuída e influenciou profundamente o movimento marxista-leninista.

Tradução de Glauber Ataide


Fonte original - O Marxista-Leninista
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